Especialista das áreas de redes de computadores, segurança de redes e privacidade dos dados explica o que houve para a rede social X ainda conseguisse ser acessada em território brasileiro
Desde quarta-feira, 18 de setembro, não se fala em outra coisa a não ser no “truque” que fez com que a rede social X, de Elon Musk, ficasse novamente disponível para usuários brasileiros. No entanto, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes decidiu multar em R$ 5 milhões, na quinta-feira, 19 de setembro, de forma subsidiária à Starlink – empresa de tecnologia também vinculada ao bilionário dono da rede social que teve recursos bloqueados no início do mês para bancar multas aplicadas ao X. Ou seja: se o X decidir não pagar, a Starlink terá de honrar a multa. A decisão foi publicada como um “edital de intimação”, já que o X não tem representante legal no Brasil, motivo inclusive pelo qual foi banido do país.
No documento, Moraes intimou o X no Brasil “para que, imediatamente, suspenda a utilização de seus novos acessos pelos servidores CDN Cloudfare, Fastly e Edgeuno e outros semelhantes, criados para burlar a decisão judicial de bloqueio da plataforma em território nacional, sob pena de multa diária de R$ 5 milhões”. Isso ocorreu após usuários da rede social relataram terem conseguido acessar a plataforma, mesmo sem o uso do VPN. Depois, foi identificado que o X migrou os servidores para um novo IP, o que teria driblado o bloqueio já definido pelas operadoras no Brasil.
Para explicar detalhes sobre o caso, a Tribuna da Imprensa entrevistou
a cientista da computação Michele Nogueira. Ela atua nas áreas de redes de computadores, segurança de redes e privacidade dos dados, e é especialista no ataque DDoS, sofrido pelo STF. Com doutorado em Ciência da Computação pela Sorbonne Université – França e Pós-doutorado na Universidade Carnegie Mellon (CMU), Pittsburgh, EUA, ainda é membro sênior da Association for Computing Machinery (ACM) e do Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE).
Também é professora associada do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e membro permanente do programa de pós-graduação em Ciência da Computação.
Como funciona esse “truque” que fez com que dê para acessar o X, mesmo estando bloqueado? E como é possível fazer isso sem o uso do VPN?
A internet funciona embasada em endereços únicos que associamos com as máquinas e os serviços que essas máquinas oferecem. Em geral, por exemplo, colocamos no browser twitter.com ou x.com, etc. Esse é um rótulo que usamos, mas as máquinas não entendem esses rótulos, a gente precisa transformar isso em um endereço IP. Então, tudo na internet funciona embasado no endereço IP, que é como se fosse o endereço da nossa casa. E ele é único na internet inteira. Inclusive, esses endereços são distribuídos de forma regional. Então, no caso aqui do X, o que aconteceu, pelo o que vem sendo divulgado na mídia: a plataforma tinha aqui, no Brasil, o serviço, e estava associado aos IPs que são da nossa região, para que a gente possa acessar esses endereços. Não necessariamente esses endereços precisam estar na região em que estamos. Nesse caso, quando a Anatel bloqueou o X, ela bloqueou embasado nos endereços IPs que conheciam do serviço X. Mas o que o X fala é que, para ele conseguir atuar na América Latina, ele precisou mudar o serviço para um outro servidor, consequentemente um outro endereço, e ele não estava na lista da Anatel para ser bloqueado.
Então, por isso, aqui no Brasil a gente conseguiu ainda ter acesso ao X mesmo com alguns IPs bloqueados, que anteriormente estavam associados ao serviço, mas esses novos não estavam associados aos serviços, não estavam bloqueados pela Anatel. Logo, a gente conseguiu ter acesso. Então, não é truque, foi uma nova configuração que foi feita. E, considerando que são usados novos endereços, eles precisariam ser também bloqueados pela Anatel, já que leva um certo tempo para fazer essa nova configuração.
Então não foi necessário o uso da VPN?
Sim, não precisou de VPN, porque essa é uma configuração básica da forma de funcionamento da própria internet, não precisa necessariamente usar uma VPN. O que a VPN faz? Ela oferece um endereço IP externo, como se tivesse em um outro país, para poder acessar a página do X. Ou seja, a gente não precisou fazer isso porque, na verdade, quem mudou de endereço e não estava no bloqueio foi o servidor do X, e não a gente que precisou fazer algum desvio para acessar esse serviço nos nossos computadores aqui no país.
O acesso dos brasileiros à rede social foi possível após a empresa do bilionário Elon Musk mudar seus servidores, dificultando o bloqueio pelas operadoras de internet. Isso, então, permitiu que algumas pessoas até mesmo publicassem na plataforma. Como isso pode ocasionar no uso da plataforma pelos usuários?
Pelos motivos que eu falei, pois como o serviço está associado a um endereço e como a nova configuração usou um outro endereço que não havia sido bloqueado pela Anatel, pelas operadoras de internet aqui no Brasil, seguindo o que foi definido nas ações judiciais que tinham sido julgadas, logo a gente conseguiu ter acesso, como qualquer outro serviço na internet. Então, para que a gente não tenha acesso a esse novo IP que está associado ao serviço, a Anatel e as operadoras precisam incluir agora esses endereços na lista de bloqueio que ela possivelmente deve ter criado. Por isso a mudança de servidor e de IP acaba trazendo ou saindo desse bloqueio que foi ocasionado.
Se isso foi intencional ou não, eu não consigo dizer, eu não sei, mas é do ponto de vista técnico, é uma configuração que é relativamente simples, pode realmente ter sido motivado por conta de oferecer o serviço para a América Latina e outros países, mas a intenção de fato, se foi de burlar o bloqueio, não temos como saber.
Na ocasião, a empresa argumentou que a mudança foi feita porque a infraestrutura para fornecer o serviço na América Latina ficou inacessível para sua equipe após o bloqueio no Brasil, usando o Cloudfare. O que pode dizer sobre isso?
É possível sim que essa mudança tenha sido motivada por essa necessidade de oferecer o serviço para a América Latina, até porque as nossas operadoras, aqui no Brasil, muitas vezes oferecem também serviço para outros países e, uma vez que esses bloqueios aconteceram aqui no Brasil, consequentemente também afetaram essas operadoras que oferecem serviço para outros países da América Latina. Faz sentido que o X esteja falando disso como motivação, eles precisaram mudar essa infraestrutura, essa configuração em relação ao IP versus serviços, e isso também poderia ter aberto essa possibilidade de acessar o serviço do X, mesmo tendo os bloqueios. Até porque muito possivelmente essa configuração, esses usuários externos podem precisar ter acesso à plataforma e, aqui no Brasil, talvez esse bloqueio tenha afetado eles também. Ou seja, países ou usuários fora do Brasil.
O que pode ser feito para que realmente o X não seja acessado no Brasil? Existe alguma chance de acessar a rede social após essa multa?
Uma vez que o X defina qual que é o endereço IP, a Anatel e todas as operadoras, consequentemente, vão seguir o bloqueio desse endereço IP e a gente não vai conseguir ter acesso ao X aqui no Brasil. A forma que poderia se acessar seria, aí sim, seria um truque, seria um bypass, como a gente fala, um desvio, que seria usar uma VPN que vai dar para o seu computador um endereço IP, como se estivesse em um outro país. Então, no fundo, usando a VPN, é como se não tivesse acessado do Brasil, mas de um outro país. Aqui do Brasil a gente ficaria limitado, a gente não conseguiria, de forma alguma, acessar, na configuração atual normal, sem VPN. A VPN faz uma imagem de que o teu computador está em uma outra localização para que você possa ter acesso, através das regras daquele local, acesso ao servidor do X. Uma vez que o serviço fique realmente bloqueado, ou seja, o servidor do X não tenha mudança nenhuma em relação à configuração, aí nós, aqui no Brasil, ficaríamos realmente sem qualquer acesso ao servidor do X.
Em tempo:
- O QUE É IP? É uma sequência de números que funciona como o endereço de um servidor. Na prática, ao digitar o endereço de um site, o navegador transforma o link em um IP (sigla em inglês para “protocolo de internet”).
- O QUE É CLOUDFLARE? A Cloudflare é uma empresa que fornece serviços e pode atuar como um intermediário entre o servidor de um site e o usuário. Neste caso, esse serviço permitiu que o X se tornasse mais resistente contra o bloqueio.
