O conflito com o Hamas e a escalada com o Hezbollah paralisaram setores inteiros da economia israelense. Até a classificação de crédito do país despencou
A economia israelense começa a registrar as consequências da guerra entre o Hamas e o país, iniciada 7 de outubro do ano passado, após a invasão do grupo terrorista ao Estado judeu. Além das perdas humanas, Israel viu o seu Produto Interno Bruto (PIB) recuar quase 20% somente no início deste ano; sua classificação de crédito despencar; e dezenas de milhares de empresas fecharam. Muitos reservistas têm tentado se equilibrar entre as suas carreiras e o serviço militar em meio à guerra.
Segundo analistas econômicos, a tendência é de que a crise econômica já instalada se agudize ainda mais diante da falta de aceno de um cessar-fogo em Gaza, e uma possível invasão do Líbano sinalizada com a intensificação do conflito com o grupo xiita libanês Hezbollah. O cenário preocupa a população, que já está sentindo as consequências; e mais ainda os investidores, que já estavam ressabiados, mesmo antes da guerra contra Hamas, com as polêmicas reformas promovidas pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, que geraram protestos em massa nas ruas.
Por dependeram da mão de obra palestina, cuja permissão para atuar no país foi suspensa pelo governo de Israel, setores como a construção civil e a agricultura são os mais atingidos pela falta de braços. Em muitos setores, o cenário gerado é semelhante ao da pandemia da Covid-19, com paralização da produção, retração do consumo, e a suspenção de atividades escolares e nos escritórios por certos períodos.
No lado palestino, a impossibilidade de trabalhar tem gerado grandes mazelas. Segundo, Raja Khalidi, diretor geral do Instituto de Pesquisa de Política Econômica da Palestina, antes da guerra, 180 mil palestinos trabalhavam em Israel, sendo que desse total, 130 mil tinham permissão do governo para tal.
“A economia está em sério perigo, a menos que o governo acorde”, disse o diretor do Shoresh Institution for Socioeconomic Research, Dan Ben-David, ao Washington Post, destacando que Bibi e seu governo estão completamente voltados apenas para a guerra, que não tem fim à vista.
O cenário que parece desolador para muitos não assusta outros, no entanto. Ao Post, Dany Bahar, membro sênior do Center for Global Development, destacou que Israel é conhecido por sua resiliência econômica em tempos tormentosos de guerra, muito por conta da força do setor de tecnologia e informação. Bahar destacou ainda, que a gravidade do atual conflito impõe novos desafios econômicos a Israel, pois esta “parece a mãe de todas as guerras”, que para ser vencida precisa de muito dinheiro, “e o dinheiro tem de vir de algum lugar”.
Adicionalmente, há a questão da convocação dos reservistas, muitos dos quais desempenham papéis essenciais em suas empresas. Isso, obviamente, tem impactado o desempenho econômico israelense. Aproximadamente 287 mil israelenses foram convocados para servir nas Forças Armadas, desde o início do conflito – a ausência desses cidadãos em um país com menos de 10 milhões de habitantes gera um grande estrago.
“Parece que se uma mudança significativa não acontecer logo, a economia entrará em colapso,” disse ao Washington Post, Shelly Lotan, que no ano passado abriu uma startup de tecnologia alimentícia. Lotam perdeu alguns de seus funcionários para o Exército e viu seus lucros serem reduzidos drasticamente, segundo o jornal O Globo.
Apesar da força do setor de tecnologia, que se mantem relativamente estável mesmo diante de uma guerra, outros como o turismo não tem a mesma resiliência. De acordo com o Central Bureau of Statistics, o setor registrou uma queda de mais 75% somente em 2024. As ruas antes movimentadas da Cidade Velha de Jerusalém, importante ponto de peregrinação para os cristãos, é o local mais afetado, com dezenas de comércios com as portas fechadas.
Localizada justamente na Cidade Velha, a padaria da família de Ayman Shawar, um dos pontos turísticos mais importantes de Israel e que antes da guerra costumava ser bastante movimentada, formando fila do lado de fora, especialmente aos sábados, agora está vazia. O dono de uma barraca de sorvetes e sucos, Abdul Qader Alami, de 70 anos, também enfrenta dificuldades no seu negócio. A sorte é que Alami conta com uma aposentadoria de anos de trabalho nos Estados Unidos para sobreviver. Sem ela, no atual cenário israelense, estaria prestes a “morrer de fome”: “A economia era turistas e os turistas se foram. Não há economia,” comentou desalentado ao Post.
Patricia Lima
