J. Carlos de Assis
Acaba de sair no HBO um documentário dirigido por Cullen Hoback sobre a bitcoin. É fraco, segundo umacrítica recebe que li na Folha de São Paulo. E a Folha tem razão, no que diz respeito ao fato de que o documentário tem foco apenas nos personagens a quem se atribui a criação da criptomoeda, apenas sugerindo quem foi. Nãoresponde, porém, à questão essencial de por que o criador se esconde no anonimato.
Para entender isso é necessário saber o que é uma bitcoin. Na aparência, é uma “coisa” fundada em alta matemática, ou seja, definida por um algoritmo tão complexo que, até hoje, não foi violado por nenhum invasor do sistema que a controla. Entretanto, poucos sabem que, no fundamental, ela não passa de um elemento de uma clássica pirâmide financeira, cuja novidade essencial é sua modernização pela digitalização.
O que é uma pirâmide financeira? Isso muita gente sabe. É um sistema onde as aplicações financeiras mais antigas, atraídas por taxas de juros altíssimas, são remuneradas por novas aplicações, sem correspondência com qualquer investimento real. Funciona no início por conta da esperteza de alguns estelionatários que exploram a ganância de gente que quer ganhar dinheiro rápido, sem trabalhar. Explode, no fim, quando alguém desconfia do esquema e inicia uma corrida para rever suas aplicações, descobrindo que viraram pó!
No fundo, portanto, é uma moeda que não vale nada. Só vale enquanto as pessoas acreditam que vale. E acreditam porque os vigaristas que a exploram no mercado sustentam-na na base de um esquema de publicidade e propaganda que envolve grandes personalidades do mundo artístico, esportivo e cultural, que nada entendem de finanças, o que é reforçado pelas histórias boca a boca de ganhos reais na fase em que há maior volume de aplicações entrando no sistema do que saindo.
Assim fica mais fácil entender porque o criador da bitcoin se esconde: ele simplesmente tem medo de que alguma autoridade policial ou judicial descubra a natureza de pirâmide que está por baixo de sua tecnologia sofisticada. Seu sucesso abriu espaço para dezenas de outras criptomoedas, que, tais como a pioneira, não são perturbadas pela polícia ou pela Justiça.
É estranho o fato de que as autoridades financeiras mundiais não coíbam o mercado de criptomoedas, embora criminalizem as pirâmides financeiras tradicionais. Parte da explicação, como fisse, é o fetiche da tecnologia. O esquema de criptons está protegido pela imensa parafernália tecnológica possibilitada pelo uso da internet e da digitalização. E está protegido também pelo fato de que o sistema escapa da vigilância do Estado e reforça o poder de grupos que o utilizam para todo tipo de crimes, desde a fraude em impostos até o tráfico de drogas, assim“valorizando” e sustentando a moeda de baixo para cimapela mão dos marginais.
A resposta à pergunta de por que o criador da bitcoinse esconde é muito simples: a razão é que esse misterioso personagem sabe que está estabelecendo as bases de um crime de extensão mundial, e que, se houvesse maior inteligência entre as autoridades públicas e judiciárias dos diferentes países onde as criptomoedas circulam, ele seriapreso julgado e condenado por estelionato, como o foram fraudadores de sua espécie que o precederam.
Na história, dezenas de exploradores de pirâmides financeiras acabaram na cadeia. O primeiro deles, Carlo Ponzi, criador do esquema, nasceu na Itália, emigrou para os Estados Unidos e praticou nesse país vários crimes de estelionato desse tipo. Posteriormente foi preso e deportado, tendo vindo para o Brasil e morrido aqui em absoluta miséria, num asilo de indigentes.
Entretanto, entre os maiores estelionatários do esquema Ponzi ninguém se destacou mais que Bernard Madoff, ex-presidente da Nasdaq, uma das grandes bolsas dos Estados Unidos e, portanto, da elite financeira norte-americana. Ele cometeu a maior fraude desse tipo no País no século XX, sequestrando de seus investidores cerca de 55 bilhões de dólares. Naturalmente, também acabou preso.
O interessante, nos Estados Unidos, é que não foi apolícia, mas jornalistas investigativos que desconfiaram das altas taxas de juros oferecidas pelos estelionatários para atrair clientes que os denunciaram. Ponzi, por exemplo, oferecia taxa de juros de 50% em 45 dias, ou de 100% em 90 dias. Era demais, mesmo num mercado altamente especulativo como o norte-americano.
Aqui no Brasil, a grande mídia, principalmente a televisiva, costuma anunciar as criptomoedas com toda a naturalidade, como se fosse um “produto” normal do mercado financeiro, com excepcional rentabilidade, e não uma patifaria. Inclusive usa em sua programação imagem e voz de destacadas personagens de seu staff, como aconteceu com Pedro Bial, da Globo, na fase inicial do lançamento da bitcoin.
Por outro lado, ao não reprimir o mercado de bitcoinse de outras cryptomoedas como moedas de transação e de reserva de valor, as autoridades financeiras, e principalmente o Tesouro Nacional e o Banco Central, efetivamente renunciam a suas prerrogativas soberanas e exclusivas de emitir moeda comum como base monetária da economia. Com isso, abrem mão de um importante instrumento de financiamento do setor público, que ajuda na administração do orçamento primário, assim como na ampliação do investimento governamental e de toda a economia.
Foto:Chris Ratcliffe/Bloomberg
